← Todos os artigos

Anthropic · produtividade

A IA não substitui o seu critério

Um estudo da Anthropic com 80.508 usuários mostra o mesmo padrão: as pessoas querem produtividade, mas temem falta de confiabilidade, perda de autonomia e atrofia do julgamento.

Marcelo Carrapatoso 24 de junho de 2026 · 5 min de leitura
Profissional avalia um painel de governança de IA em um escritório, antes de delegar decisões à tecnologia.

Em dezembro de 2025, a Anthropic (a empresa que faz o Claude, concorrente do ChatGPT) fez uma pergunta simples para muita gente ao mesmo tempo: o que você quer da IA, e o que você tem medo que dê errado? 80.508 pessoas responderam, em 159 países e 70 idiomas, todas usuárias do Claude.

O resultado mais interessante não aparece em nenhuma resposta isolada. Ele aparece quando comparamos as respostas.

Quando as pessoas falam sobre o que querem, o desejo que mais aparece é fazer um trabalho de excelência, com mais competência. Quando falam sobre o que o uso da IA trouxe de diferencial, a produtividade se destaca. Só que logo atrás aparece uma resposta incômoda: para muita gente, a IA ainda não trouxe nada relevante. E quando falam sobre o que temem, a lista traz uma realidade dura. No topo está a falta de confiabilidade das respostas. Depois vêm o impacto em empregos e na economia, a perda de autonomia, e o medo de atrofiar a própria capacidade de julgamento crítico.

Pois é. As mesmas áreas onde a IA promete ganho são as áreas onde ela mais assusta. A Anthropic chamou isso de “luz e sombra”: cada promessa (luz) vem com a sombra junto.

Aqui eu faço uma ressalva antes de prosseguir. Esse estudo ouviu usuários do Claude, ou seja, gente que já adotou IA. É um público que tende a ser mais otimista e mais informado que a média. Ainda assim, o padrão que se observa, desejo e medo ao mesmo tempo, é justamente o que você esperaria de quem usa a tecnologia tão de perto.

É aqui que muita gente erra. A conversa sobre IA quase sempre começa pela ferramenta: qual aplicativo, qual modelo, qual prompt, qual automação. Só que o estudo aponta outra coisa. O gargalo não é capacidade técnica, mas sim confiança e consequência. A pergunta certa não é “qual ferramenta eu uso”. É “o que vale a pena eu produzir, o que eu preciso verificar antes de assinar embaixo, e o que continua sendo minha responsabilidade, mesmo quando a máquina faz”.

Isso tem um nome. Critério.

Eu penso que critério é a variável que separa quem se destaca de quem só aumenta o próprio problema. É a capacidade de escolher o que merece ser feito, de checar o que a máquina entregou e de assumir uma posição. É justamente o que a IA não tem e não vai fazer por você. Ela é um copiloto e não o piloto: ela acelera o que você já é capaz de analisar e julgar. Se você não tem critério, ela só torna o erro mais rápido e, ainda por cima, parecendo super competente.

Se fosse eu? Antes de entregar qualquer tarefa para uma IA, eu olharia três coisas.

Primeiro, o que é repetitivo. Tarefa que se repete, com regra definida e baixo custo de errar, é uma forte candidata à delegação. Aqui a IA traz o melhor resultado e o ganho é real.

Segundo, o que é dado sensível. Informação de cliente, contrato, dado financeiro, dado pessoal. Aqui a pergunta deixa de ser produtividade e passa a ser exposição. Velocidade sem cuidado não é eficiência, é risco. Dado sensível não é enviado a qualquer ferramenta só porque ela é mais rápida.

Terceiro, onde fica o julgamento humano. A decisão que alguém tem que tomar, a interpretação que pode dar errado e causar dano. Isto não se delega. O conteúdo pode ser produzido inicialmente pela IA, mas é revisado e finalizado por um ser humano.

Quem não observa essas três coisas não fica mais produtivo. Fica mais rápido para produzir aquilo de que vai se arrepender depois.

IA sem critério não melhora produtividade. Aumenta risco.

Agora, a boa notícia que esse estudo traz: o desejo das pessoas é verdadeiro. As pessoas querem fazer um trabalho melhor, com mais competência, com mais tempo para o que importa. E isso é alcançável. Só que o caminho passa por criar critérios, saber o que delegar, o que verificar e o que continuar fazendo sem a IA.

É esse tipo de pessoa que prospera com a mudança, em vez de viver com medo dela. Não a que tem mais ferramentas, mas sim a que tem mais critério para usá-las e obter os melhores resultados.

Então, se você é profissional ou gestor e está levando a IA a sério, o primeiro passo não é instalar mais um aplicativo. É mapear, no seu próprio trabalho, onde está a repetição, onde está o dado sensível e onde está o julgamento que não pode sair das suas mãos. Esse mapa é o que transforma IA em vantagem, em vez de transformar em exposição e risco.

É exatamente por aí que começa um diagnóstico IA Antifrágil.

Faça o diagnóstico gratuito agora mesmo

Compartilhar LinkedIn X
Marcelo Carrapatoso

Marcelo Carrapatoso

Advogado, Mestre em Gestão pela FGV. Escreve sobre IA aplicada ao trabalho, gestão e reinvenção profissional.

Sobre o autor →

Atendimento

Precisa de ajuda para implementar IA na sua organização?

Diagnóstico, desenho de workflows e capacitação de equipes para ambientes que levam IA a sério.

Quero um atendimento