A armadilha da automação: eficiência ou substituição?

Dharmesh Shah, cofundador e CTO da HubSpot (plataforma americana de CRM e
marketing), defende que o profissional que automatiza as próprias
tarefas é quem consegue a promoção. Para ele, a IA é a ferramenta que
separa quem executa de quem gerencia a execução. É uma visão otimista do
Vale do Silício, onde a eficiência é trocada por mais espaço para
criar.

Do outro lado do mundo, a realidade parece ser mais pesada. Relatos
recentes do portal AiDrop sobre empresas na China mostram o uso de
ferramentas para “clonar” o fluxo de trabalho de colegas. O objetivo não
é dar tempo livre ao funcionário, mas sim provar que a função pode ser
operada por um script, justificando possíveis demissões.

Você e eu, todo mundo, estamos no meio desse fogo cruzado. A pergunta que fica não
é se devemos automatizar, mas sim para que estamos fazendo isso. O risco
é que a nossa busca por produtividade seja, na verdade, a redação da
nossa própria carta de demissão.

A eficiência cega é perigosa.

Se você usa a IA apenas para fazer em duas horas o que levava oito,
você criou um problema para si mesmo. Acabou de provar para a empresa
que a sua carga de trabalho real é de duas horas. Se o seu valor está
atrelado à entrega da tarefa, você pode se tornar redundante.

Eu penso que a eficiência pura pode acabar sendo a estrada mais
rápida para a demissão.

O propósito da automação não pode ser apenas “ganhar tempo”. Tempo é
um recurso vazio se você não sabe onde aplicá-lo para gerar valor. O
objetivo deve ser a mudança de patamar. Se você automatiza a planilha
para ter a tarde livre e assistir séries, na verdade, você é frágil. Se
você automatiza a planilha para analisar por que os números estão
caindo, aí você começa a se tornar antifrágil.

O valor vai migrar da entrega para a resolução.

Existe uma diferença importantíssima entre o “estagiário eficiente” e
o “arquiteto de escala”. O estagiário eficiente usa o Claude ou o
ChatGPT para escrever e-mails mais rápido ou resumir reuniões. Ele
entrega a tarefa com perfeição e rapidez. O problema é que qualquer
pessoa com um prompt médio faz, ou em breve fará, o mesmo.

O arquiteto de escala olha para a tarefa e se pergunta: qual é o
gargalo organizacional que aquele processo esconde? Ele automatiza a
tarefa para poder focar no problema que ninguém está olhando.

Se você automatiza a triagem de tickets de suporte, sugiro que não
use o tempo ganho para responder mais tickets. Use esse tempo para
mapear quais falhas no produto geram esses tickets e proponha a correção
ao time de engenharia.

Você deixa de ser a pessoa que “limpa uma sujeira do chão” para ser a pessoa que
“projeta o sistema de drenagem”.

A posição antifrágil aqui é a via negativa: pare de tentar ser o
executor mais rápido. A velocidade de execução agora pertence às
máquinas. Tentar competir em velocidade é lutar contra a maré.

O seu novo lugar no organograma não deve ser a ponta da execução, mas sim a
camada de orquestração. Você deve ser a pessoa que sabe quais problemas
valem a pena ser automatizados e quais exigem o julgamento humano que a
IA ainda não possui.

A escala agora é cognitiva, não operacional.

Para sair da armadilha da automação, você precisa de um método. Não
adianta ler manuais de prompts se você não entende a dor do seu chefe ou
da sua empresa. A técnica é simples, mas exige que você saia da sua
bolha de tarefas, que você dê um passo atrás e veja o cenário como um
todo.

Eis a minha sugestão: assim que possível, pare e faça o seguinte exercício
de dois minutos.

Olhe para uma tarefa que você automatizou na última semana. Escreva em
um papel: “Se essa tarefa agora leva zero minutos, qual é o problema
estratégico da minha área que eu posso resolver com o tempo que
sobrou?”.

Agora, procure por um “gargalo invisível”. Aquele problema que todo
mundo sabe que existe, mas ninguém resolve porque “está todo mundo
ocupado demais executando”. Pode ser um processo confuso, uma falha na
comunicação entre vendas e produto, ou um relatório que ninguém lê mas
todos pedem.

Dedique os minutos, as horas que a IA te devolveu para desenhar a solução desse
gargalo. Quando você apresentar o resultado, não diga que “usou IA para
ter tempo”. Diga que identificou um problema que estava custando
dinheiro à empresa e que você resolveu.

A IA foi o meio, mas a resolução do problema foi o seu valor.

Se você se posiciona como o “cara da IA”, você pode ser substituído pela
próxima atualização do modelo. Se você se posiciona como quem resolve
problemas complexos usando as ferramentas disponíveis, você se torna
indispensável.

A automação deve servir para ampliar o seu impacto, não para diminuir
sua carga horária.

Não seja o funcionário que provou que a sua função não precisa de um
ser humano. Seja o profissional que usa a máquina para enxergar o que
ninguém mais está vendo. Seja o arquiteto.

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